sábado, 4 de setembro de 2010

Dentro







Ao andar pelas galerias do pequeno museu, Tereza sentia ainda a tontura da corrida que dera até chegar ali. A subida da ladeira às pressas fez seu coração acelerar, e seu peito arfando causava a sensação de sufoco e zoeira. Mas o mais forte de toda a confusão mental era a lembrança dos gritos de Armado ainda em seus ouvidos. “Vagabunda, desgraçada, fica comigo.”

Nem lembrava bem como conseguira escapar entre a turba em frente ao prédio. Agora, caminhando devagar, recuperando o fôlego, começou a imaginar quantas pessoas se deram conta de sua fuga. Talvez a polícia estivesse chegando a qualquer momento para saber o motivo da briga, ou qual sua relação com o garoto, que agora deveria estar seguindo para o conselho tutelar.

Sua saia estava rasgada e a blusa suja. O chinelo era só uma tira entre os dedos e outra que prendia atrás do tornozelo, e para sua sorte resistira aos paralelepípedos imperiais que voaram sob seus pés no caminho. O cabelo estava como sempre, pois era assim mesmo, grudado na cabeça, sem forma. A boca seca fazia a respiração doer corpo adentro. Mas o mais difícil era segurar as lágrimas que vinham rasgando sua garganta e eram engolidas com força, como uma onda impedida de quebrar. Tereza não queria chorar, pois poderia ser o fim de seu disfarce. Com aquela quantidade de turistas dentro do museu na semana santa seria impossível alguém achá-la.



Não entendia a razão de tanta raiva de seu filho. Ela apenas estava fazendo o que sempre fez... Trabalhando, cuidando de sua vida, ganhando seu pão. Afinal, não era disso que a vida era feita? De uma série de dias seguidos e cinzentos, preenchidos de horas de trabalho, trocadas por moedas inúteis, que eram novamente trocadas por uma comida ruim e bebidas sem gosto, que logo se transformavam em urina ardida pra sair, e cocos fétidos, que logo iriam parar nos esgotos da pequena Esmeralda, uma parte que os turistas não conheciam da histórica cidade.

Armando ainda queria mais dela. Carinho, amor e atenção. Essas palavras que a novela mostra, mas que são apenas idéias de quem tem tempo pra trabalhar menos. De onde um garoto criado num mundo sem sonhos podia esperar mais do que a troca estúpida de suor por esgoto?

Desde que havia entregue seu pequeno para a tia criar, sabia que a vida seria um pouco menos difícil. Afinal sem ter que correr para dar a janta e lavar roupas e levar na escola e costurar furos em calças e cortar cabelos e unhas e catar piolhos e olhar nos olhos daquele menino, parecia que as coisas voltavam a ser o que sempre foram, simples, retas, duras, sabidas.

Nunca gostou daquele excesso de necessidades que o pequeno tinha trazido quando chegou ao mundo sem ser convidado. Choro demais, riso demais, toques demais, quenturas no peito que ela não sabia aplacar. Melhor não ter por perto...

Mas não importa quanto tempo passe, o menino não esquece dela. Volta mais e mais uma vez tentando falar, reclamar, pedir ou oferecer. Não percebe que ela nem consegue entender tanto desejo, não conhece essa espera... Nem por ele ela esperou. Ele chegou sem ser chamado e sem avisar. Seu corpo apenas foi arredondando, sua fome aumentando, o sono ganhando horas do dia e lágrimas que vinham do nada. Até que numa madrugada longa, Tereza sentiu uma água quente descer pelas pernas, uma dor nas virilhas e um fogo ardido lá em baixo.

Dona Alzira, a patroa, não entendeu nada quando ouviu os gritos de Tereza, mas entendeu tudo quando entrou no pequeno quartinho e viu a mulher de pernas abertas.

No hospital a surpresa, um menino saiu de dentro dela como se fosse uma coisa normal. Um bebê que lhe entregaram nos braços e que surgiu assim, do nada, pra nada.

Se Tereza saiu do hospital com o pequeno faminto e sem nome nos braços foi porque não sabia que havia alternativa diferente. Talvez se a freira tivesse perguntado sobre a possibilidade de deixá-lo ali, ela não tivesse tido dúvidas, afinal chegou de repente, poderia partir também.

E foi assim que surgiu Armando, nome dado pela patroa depois de uma semana de nascido, já que Tereza mal conseguia dar teta à boca aberta do pequeno. Nem seus mamilos tinham forma de bico, quase retos, doídos e rachados. Por isso Armando bebeu leite e sangue por uns dias, ficando mais rosado do que gordo.

Tereza mesma nem sabia bem o que uma mãe fazia. A sua, nem conheceu direito. Mal chegou na cidade com ela no colo e sumiu no mundo. Foi tia Deusdina quem lhe deu de comer e lhe arrumou emprego desde que cresceu um pouco e consegui carregar algumas coisas e lavar outras, cozinhar umas comidas e buscar compras, e essas coisas que se fazia, e faz, em Esmeralda, na casa dos que tem dinheiro e dão um pouco pros que não tem, em troca de fazer o que eles não fazem. E ela cresceu assim, entre senhoras e meninas enfeitadas com fitas que nem lhe olhavam nos olhos, muito menos ela queria. Só fazia fazer o que lhe mandavam, assim era pra ser.

Então agora, com o menino, esperava que o tempo passasse logo e ele pudesse começar a fazer as coisas que tinham de ser feitas e deixasse de precisar de tudo, pra que ela também pudesse fazer aquilo que devia, sem parar para atender quando ele chamava.

Dona Alzira já reclamava que as coisas estavam precisando de mais atenção e ela recorreu à Tia Deusdina. “Deixo ele aqui de dia e pego de noite. Como a senhora costura, pode ficar com ele e eu dou metade do que ganho”. Deusdina já tinha criado pra lá de dez e mais um não seria difícil. “Eles se criam sozinhos minha filha, e logo que crescer um pouco mando pro bar do seu Valdevi pra ajudar no balcão.”

E agora sentada no museu olhando pra estátua que, contam, foi feita por um aleijado, Tereza lembrava do dia que ela passou a ver o menino só no sábado, que foi ficando noite e dia com a tia, pra alívio da patroa, e mais ainda do patrão que já não podia fazer as visitas noturnas desde antes do Gritão nascer, como ele dizia.

Da patroa ela nem reclamava, era boa. Ou pelo menos não era ruim. O patrão, ao contrário, tinha um cheiro tão forte de fumo que lhe dava enjôo quando tinha que deitar com ele. E deitava porque sabia que era o que devia fazer, desde criança.

Deusdina já tinha lhe explicado como era, na primeira vez que lhe pegaram, ainda menina, e assim foi sempre. Bom mesmo ela nunca achou, mas ruim também não era. Ardia as vezes, outras não, mas era sempre rápido e logo podia dormir. Os homens pelo menos eram apressados e isso ajudava a não se cansar daquele cheiro azedo e doce que tinha deitar. Não ligava pra sujeira que fazia, pois não conhecia diferente.

E assim foi, que Armando foi ficando maior e aprendeu o caminho da casa de Tereza indo bater lá pra pedir benção, e pedir comida e pedir colo e depois pedir dinheiro, e mais ainda explicação.

Os patrões então acharam que Tereza já tinha ficado ali por muito tempo e o garoto andava aparecendo demais, e já era hora de buscar outro lugar.

Tereza encontrou emprego no bar da Cidade Alta onde serviam cachaça e prato feito, e ela lavava, cozinhava, servia, limpava e fechava tudo, se fosse pra ser. Mas guardava uma vianda pra levar pro menino em casa da tia porque ele andava comendo demais, e o dinheiro já não dava conta, e ainda mais agora que tinha que pagar um quarto na pensão, pequeno mesmo que não cabia Armando.



Mas o menino cismava de achar ruim ficar na tia com mais quatro, se ele era o único que tinha mãe. Coisa estranha achar que pode ser diferente do que é. Tereza nem respondia pro menino essas coisas sobre como deveria ser. Diferente é aquilo que não é, e como ela poderia falar sem saber?



Mas Armando não entendia essa lógica e ela não entendia suas dúvidas e cada vez mais não tinha o que dizer ao garoto, e cada vez mais evitava ver e ouvir suas queixas. E foi assim que mais brabo ele ficou e começou a vir brigar no bar. E ela logo teve que sair pra outro emprego, e mais outro.

Até que ele resolveu que deveria saber quem era o pai. E lá isso existe menino? Pai ? Isso só vi mesmo em casa de gente rica, porque pobre não tem pai, e esquece toda essa bobagem, e me esquece também que já te dei o que tinha pra dar e vai cuidar da tua vida.

E foi assim que Tereza acabou correndo ladeira acima, de chinelos e roupa rasgada pelo desespero do filho que teimou em não se conformar.

E ali, no museu, olhando a estátua de olhos saltados, Tereza se assustou quando sentiu que uma onde forte demais subiu, vazando pelos olhos e boca, virando som de choro que ela nunca tinha ouvido tão forte nem de tão perto, assim mesmo, de dentro, de dentro.





quinta-feira, 15 de julho de 2010

SOPA DE CAPELETTI

Dei a partida no carro, ajeitei o retrovisor, prendi o cinto e acelerei. Não havia imaginado que este dia de sol seria cenário de um funeral, mas a imprevisibilidade é uma das coisas que mais me interessa na vida. Não importam as circunstancias.

Meu destino foi sendo esquecido conforme o vento, que entrava pelo teto solar do meu carro novo, fazia voar meus cabelos e meus pensamentos. Camila era uma figura cheia de vida e desejos em minha memória, e era sua presença que eu sentia ao meu lado.


As curvas verdes da rota romântica, perto da pequena Dois Irmãos, iluminadas pelo sol da tarde de inverno, me pareceram muito com os caminhos da Europa, que eu e ela planejamos visitar logo.

O cemitério era bem próximo à estrada e desci do carro ainda zonzo pelo vento. Já era tarde, e o cortejo chegava ao fim. Me aproximei lentamente do grupo que parava em torno de uma pequena capela, para onde o caixão estava sendo levado.

Encostado em uma árvore esperei pelo momento em que as lágrimas surgiriam espontâneas, em que os presentes viriam até mim com suas graves condolências, em que seria reconhecido como viúvo. Mas nada disso ocorreu.

Não eram os comuns interioranos que me vinham, mas o perfume de Camila. Seus cabelos dourados cheirando a camomila, ou algo do gênero. O som grave da voz dela sussurrando besteiras, que, nunca, nem ouvi com atenção. O sol da tarde entrando pela janela do quarto do hotel, o lanche cheirando a torrada de presunto e queijo com café. Sua risada, sua risada. Ver seu rosto branco brilhando era meu maior prazer na aula do curso de gestão nas noites de quinta-feira. Ainda sentia sua pele nas minhas mãos quando entrava em sala. Minhas narinas cheias de sensações, apelos saciados, pela ainda arrepiada. Camila me provocava com sua cara de nada aconteceu entre nós há poucos minutos caro professor. E quem seria aquela doida com cara de santa ?

Vi as pequenas meninas louras, que me pareciam miniaturas sem brilho de Camila, estavam vestidas como se fossem a uma festa, de mãos dadas com o pai. Ele sim, o digno viúvo.
Me sentia invisível olhando para o homem que nada sabia sobre a mulher que vivia com ele. Os sonhos, delírios, loucuras, ciúmes, devaneios e medos de Camila eram todos meus. A fragilidade e a beleza, tudo isso morria apenas para mim, e não para ele.

Naquele palco de colônia alemã no interior do Rio Grande do Sul, Camila era apenas a esposa linda do clínico da cidade, tão dedicada e correta que se sentia culpada de ir à capital toda a semana para as aulas do pós.

Para mim ela era a mulher, a amante, o prazer do encontro, a dor da partida constante. Ela nada me trazia daquela vidinha pitoresca. Nenhuma palavra sobre ser mãe, sobre o futuro ou passado, isso não nos interessava.

O sol bateu em meu rosto, já se pondo. O cortejo se desfez. As meninas estranhas, seu pai e família permaneceram junto ao caixão.
Segui caminhando em direção a eles, os olhos interioranos do médico encontraram os meus. Só então as lágrimas vieram. A legitimidade da dor não era minha e chorei ainda mais. Fui até o cimento fresco e toquei a ponta dos dedos. Camila não estava ali, apenas uma jovem senhora desinteressante, minha desconhecida. Chorei mais, e mais ainda. Talvez para estragar a paz da família perfeita, talvez por inveja, ou somente por saudade das risadas soltas de Camila.

Dei as costas para o atônito marido. Liguei o carro e iniciei a descida da serra. Hoje era dia de sopa de capeletti em casa, e Lígia me esperava com as crianças.

sexta-feira, 26 de março de 2010


A névoa aos poucos preencheu o vazio.
Mas ele mesmo assim não foi afetado...
Apenas os vales, montanhas e cataventos
deixaram de existir.



O som, devagar, surgiu no silêncio
E ele, em nada, foi afetado...
Só os latidos, gritos e ventanias
passaram a existir.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Sigo amanhã cedo de férias pra Bahia.


Será que volto?


Nunca...


Assim como nunca um homem entra duas vezes no mesmo rio, nunca uma mulher volta a mesma de suas férias.


Seja feita a vontade de Iemanjá nas águas da Ilha de Boipeba!!!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mais uma morte

Daqui a pouco estarei indo para a apresentação do meu TCC na banca da ESPM.
Termino meu pós.
Foram 18 meses que passaram em um dia.
Na verdade são 42 anos que passaram em 10 anos, ou menos.

Tudo é muito rápido na dimensão linear e horizontal do tempo.

O que quero dizer com isso ?

Foi bom estudar de novo. Reconhecer este espaço em mim. Encontrar pessoas diferentes, ler assuntos que nunca me disseram muito, quebrar preconceitos contra o administres.

Mas mais que tudo, estes projetos que tem prazo me jogam na cara muito intensamente essa questão do tempo.
Parece tão longo o período, e passa tão rápido.

Lugar comum eu sei, mas a vida é lugar comum. O tempo todo.
Esses desejos de especialidades espetaculosas também são lugar comum.

O julgamento acerca da mediocridade é medíocre.
Não há nada que seja melhor do que nada.

Essa é verdade que não queremos ver.
Vista, não se cristaliza, porque nos dá uma liberdade que não estamos prontos ou disponíveis para ter.

Mesmo os famosos nomes do mundo da ciência ou literatura ou artes ou politica ou bla bla bla, são lugar comum.

Escapam aqueles, justamente aqueles, que sabem disso.
Que são capazes de não fazer acordos em nome do glamour.

Amém a todos eles, esses sim meus ídolos, os que foram e são capazes de viver a simplicidade e assim se tornam especiais.

Morro mais uma vez, antes da última.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

...

Twitter
Paraíso das frases de efeito!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

afetos


A névoa aos poucos preencheu o vazio
E ele, mesmo assim, nao foi afetado...

Só os vales, montanhas e cataventos
deixaram de existir.

pARA hILDA 2


Amiga querida
Cá estou
Imersa naquilo
que tanto querias

Sim,há
e mata os desejos
como previste,
e não o tédio

Mas a paz fica
e Ele não vai
nem veio nunca

Aqui é,
apenas
repousa

Já sabias

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conhecimento

Tudo o que conheço, MATO
Cada um
Coisas
Amores
Lugares

Como se marcasse um aao lado daquilo que penso conhecer

Desconheço então, A partir de agora, tudo aquilo que marquei

Esqueço o apreendido
desisto do saber

Abraço o frescor da descoberta

NADA SEI

domingo, 25 de outubro de 2009

Já me dei o poder que rege meu destino
E não me prendo a nada, para não ter nada a defender.
Não tenho pensamentos, por isso verei.
Não receio nada, por isso me lembrarei de mim mesma.
Desprendida e a vontade, Passarei como um jato pela águia para me tornar livre.

Carlos Castañeda em o Presente da Águia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

HIlda


-
Hilda
Caçadora de Deus
maldita e devota

MInha parte mais ácida
amarga e entregue
Puro desejo
Espera vã

Se tanto quiseste
demais até
lá estava
sempre esteve

NÃO olhaste
bem aqui

terça-feira, 6 de outubro de 2009

cheguei...




É terça-feira.

Cheguei ontem no sítio onde me retiro voluntariamente. O lugar é lindo!

A vista da minha cabana inclui o morro da Borrússia, as antenas, lagos, parque eólico, Osório e até o mar...

O silêncio é óbvio.

Tenho por companhia o Mooji, Eckart Tolle, Osho e Krishnamurti, que encontrei por aqui. Além do sapo folha, que apelidei agora de Baba.

Nem o temporal afetou o silêncio. Ele continua, sempre...

Assim como o vento realmente não pode afetar o espaço.

Apenas o que é forma- e por natureza - transitório.

A paz É.

São poucas as distrações, e sem personificação ficam ainda menores.

Apenas a crença no outro pode criar ilusões que distraem.

domingo, 13 de setembro de 2009

Chove ainda... em POrto aLeGre





Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Vitor Ramil


Ele mesmo cantou pra mim agora há pouquinho num teatro cheio.
Esse verso, como sempre entra como uma agulha gigante lá fundo,
e não entendo,
Fui eu quem escrevi esta imagem ?
.
Ares de milonga...
Uma dor pungente
Fria
Chuvosa
Só os povos daqui
em baixo do sul do país tropical
sabem
do cinza que nos envolve
.
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
desde sempre molhadas
tao diferentes do sol banhando
os mares de cima
.
Guaíba deserto, barcos que não estão
o rio que é lago
marrom e solitário
guarda os pingos do inverno
sonhando em ser ele mesmo
.
o desejo é das mentes
que sonham a felicidade
onde o calor
traz sorrisos gratis
.
me vejo
trópica
solar
nascida em outro sonho
mais amarelo
mais verde mais azul
Mas é sempre aqui...
.
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
.
Chove em Porto Alegre
frio

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

coisinhas...

Semana passada fiz muitas coisinhas boas...

Digo assim, pois os problemas sempre são grandes para a mente, mas os prazeres são coisinhas bobas. Principalmente pra quem tem, entre os atepassados, alguns italianos que atravessaram o mar em busca de trabalho.

E a semana foi corrida, agitada, de muito trabalho mas cheias de belos programas:

Almocei no Vegan Mantra Gastronomia e Arte. Fica na Rua Santo Antônio, 372, decendo em direçao à Cristóvão. Já tinha ido lá muitas vezes e sempre adoro.

Também meditei diariamente.
Fui ao show do Lenine.
Num recital de Villa Lobos.

Vi muitos amigos.

Enfim...
Coisas
Horas
Já passaram

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

quem bate?









em volta tudo girando enlouquecidamente
sons via ondas
linhas telefônicas perdidas
telefonemas da matrix
conchavos de mentes entorpecidas

e aqui...

nada
nem um eco
incrível plateia
inabalável

quem bate na porta ?
quem ouve as queixas...

em que tempo pode o futuro ocorrer?

eterno ...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh !!!!!

Silencio.
Parem tudo.
Todos os sons
De dentro
De fora
Afora

Silêncio
Digam nada
Sonhem nada
Façam nada

Silêncio

Silêncio

Silêncio

Dois dias e duas noites apenas
Sem nada dizer
Sem som e sem eco
Tao pouco
Só isso

E então ...

Quietude
Barulho
silêncio
soluço

domingo, 2 de agosto de 2009

Onde ando?


Tantos dias sem postar.
Tantas coisas aconteceram e acontecem a cada minuto que sempre penso que estou perdendo de escrever sobre o que realmente importa.
mas quando o fato vira passado surge aquilo: o que era mesmo importante?
Terminei o semestre do pós
Acabou a oficina de crônicas
O inverno resolveu deixar marcas
A Gripe A é um pânico
Tive que começar um tratamento pro estômago e me encher de remédios que odeio
As férias foram prorrogadas pelo medo da gripe
Continuam devastando 30km2 por dia na Amazonia
Minha mãe foi pra Bahia
Revi muitos amigos
Assisti peças
Vi filmes
Estive em São Paulo

Bom - talvez "aquilo" que ficou tenha sido o Museu da Língua Portuguesa. Na verdade não era importante, apenas lindo...

sábado, 4 de julho de 2009

Pacote de dados ?






Não recebo mais presentes fora de data.

- Sra, seu plano de pontos lhe garante o recebimento de um telefone TXH9 com acesso mobile, 500 mega de memória, agenda de 1000 nomes...

Eu ouvia aquela ladainha marketeira enquanto meus colegas me serviam picanha e cerveja gelada depois de um dia infernal no escritório.
O vendedor do Call Center seguiu me contando as maravilhas do aparelho que me davam de presente.
- OK, respondi, pode me mandar - e encerrei o assunto.

Sou do tipo que não dá nenhuma bola para aparelhos de celular. Uso o mesmo modelo até parar de funcionar. Não gasto um centavo com novos modelos hitech exibidos por colegas e amigos.
Então não conhecia nada sobre o TXH9 que chegou por motoboy mais rápido do que pude acreditar que ele existia.
Era preto, um enorme visor, uma caneta de ponta fina que tocava a tela e um teclado deslizante fantástico. Todos morreram de inveja, e eu pensei - e o pacote de dados? Quanto custa o pacote de dados?
Iniciei imediatamente a pesquisa antroposociológica em busca do real motivo de ter ganho aquele presente indesejado.

Liguei ao 0800. Depois de diversos menus desconhecidos fui atendida por alguém que, após pegar todos os meus dados, me encaminhou para outro alguém que novamente questionou os meus dados. Ahá, finalmente entendi o que é um pacote de dados.
Na terceira pessoa, o veredicto:
- Mas sra, o seu plano é pós pago e aqui é o atendimento do pré pago.
Pedi que me ele me passasse alguém que pudesse me ajudar, novo diagnóstico:
- Sra, o sistema caiu, ligue mais tarde.
Pedi ao operador que mesmo assim me passasse adiante.
- Não existe uma lei que me garante ser atendida em 1 minuto? Estou na linha há 20 e ainda não fui atendida.
- Senhora, a lei define 1 minuto para o atendimento e foi cumprida senhora.
- Mas meu caro, ainda não fui atendida e estou pulando de atendente para atendente mas meu problema continua.
- Senhora, a lei prevê atendimento e não a solução de seu problema. O sistema está em off senhora.

O TXH9 continuava me olhando do alto de sua tecnologia e uma nova mensagem passou a entrar a cada 5 segundos- "mensagem de rede - rede 51".

Nada do bonito calar a boca. O manual de instruções era um livro indecifrável.
Voltei ao 0800. Nova sequência de transferências absurdas até a frase tranquilizadora:
- Senhora, vou lhe transferir ao setor responsável
- Ufa, agora sim estou tranquila.

- Pois não senhora, qual seu nome por favor?
- Me diga você o seu nome.
- Senhora, qual seu nome?
- Não querida, você não entendeu, eu sou a cliente e quero saber o SEU nome.
- Lucinda senhora, em que posso ajudá-la-
Lucinda de quê?
- Senhora, afinal em que posso ajudá-la.
- Me dizendo seu sobrenome Lucinda
- A senhora é que deve me dizer seu sobrenome.
- Por que Lucinda, estou te ligando, sou a cliente, eu é que peço o serviço e quero saber seu sobrenome.
- Senhora, afinal de contas, em que posso ajudar?
- Lucinda, lembre-se : esta ligação está sendo gravada.

O silêncio que seguiu me explicou - Lucinda desligou.

O TXH9 continua apitando, mas eu tenho medo. Ainda não sei o que ele veio fazer aqui.

Mas que vergonha!


A vergonha diminui depois dos 40. Na verdade a vergonha diminui ano a ano, desde que se nasce. Ou desde que se descobre que as coisas que fogem ao comum são coisas erradas, e que fazer essas coisas deve ser motivo de vergonha.

Quantas vezes sofri por falar palavras erradas, trocar o nome das tias de minha mãe ou peidar na frente de amigos.

Mas nada supera a maior de todas as vergonhas . Nove anos de idade, há exatos 32 anos atrás fui naquela que seria minha última festa junina.

Era domingo e o convite dizia claramente - "somente vestido de caipira".
Ok. Minha mãe, contrariando sua atitude costumeira, passou a semana providenciando minha fantasia. Chapéu de palha, saia xadrez, conga vermelha e meia calça remendada. No cabelo trancinhas. Nas bochechas um "rouge" coberto com pintinhas pretas. Era Xiquinha caipira em pessoa.

Lá fui eu. Desci do carro do meu pai e bati na porta da casa de minha ex-colega de jardim de infância. Fernanda, vestida como uma criança normal abriu a porta e começou a rir como nunca.

- Foi ontem - ela disse, rindo sem parar.

Não consegui me mexer. esperei que meus pais corressem para me tirar dali, mas não. Me abanaram e arrancaram o carro, sem saber do desastre.

Passei a tarde na casa de Fernanda, vestida de caipira esperando a hora de ir embora. Brinquei, corri, comi, até a hora de ir.

Descobri , em casa, que meus pais trocaram o dia da festa por distração e me deixaram com a vergonha.

Passei muitos anos odiando festas juninas, sem lembrar por que.

E também fui esquecendo de ter vergonha, e comprei roupas xadrez. casacos, calças, botas, meias, blusas e calcinhas.

Meus cabelos cortei de formas estranhas e enchi de muitas cores. Adoro chegar nas festas erradas.

Espero chegar aos 50 com rouge e sardas, cada vez mais sem vergonha.


Vou convidar a Fernanda!!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Não, eu não sou alguém famoso. Mesmo assim me escrevo aqui para ser lida como se fosse.
Mesmo assim exponho sentidos que pertencem só a mim como se fosse.
E ainda assim busco comentários nos posts como se fosse.
Outro dia escrevi umas linhas sobre tudo que não sou, ou a sombra do que sou - apenas o que sou na superfície - e li no grupo de malucos que, liderados pelo Carpinejar, brincam de escrever crônicas nas terças-feiras à noite.
Ninguém gostou do texto e então, depois de espernear entendi.
Ainda defendo aquilo que "não sou", ainda me desculpo pelo que "sou". Ainda estranho os personagens ou os defendo como uma mãe apegada.
Ainda, apesar do discurso ideal, me identifico minuto a minuto com tudo o que personalisticamante visto, e mesmo idealizando a consciencia adquirida, não é...

Vitimizar-se é a maior auto exaltaçao.
Coitado de mim significa - sou o máximo.
Coisas óbvias mas escondidas.
Simples e complexas.

Qual a diferença entre a mediocridade e o sucesso?
No que eu acredito de verdade?

What else?