sexta-feira, 22 de junho de 2012

Garimpado de 2010


Sempre que volto de férias sonho em não ser daqui.
Em estar além das linhas crespas que criam este lugar.

Sonho em ser trópica, quente, morena
ou ser nascida na areia, forjada no mar

Sonho que lá é melhor que o aqui
Que é longe que o dentro floresce

Esqueço que sou feita de frio, de rio, de vento
Finjo não ser Minuano, Guaíba, Missões
Derreto a geada onde nasci
Abafo o ronco do ruivo bugio

Mas o sol que vai deitar no lago
O trote do cavalo no parque
O cheiro do mate molhado
O frio do sol da madrugada
Me chamam de volta

Para as coxilhas e pampas
Serras e cânions
Para o mar que não encontra obstáculo
e forma a praia sem fim

Para o vento sul uivando
e o frio que aprofunda
Uma dor bem aguda
Aqui dentro, em mim

Me vejo então menos solar
fora do sonho amarelo, verde, azul
E lembro
Aqui
é sempre Aqui...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Já é manhã

Não foi planejado, mas nos últimos 7 dias encontrei muitas amigas que não via há muito tempo.


Parece mesmo que ter tempo fora do trabalho traz benefícios imensuráveis.

Contando, assim, nos dedos, foram 8 mulheres amadas e importantes na minha vida que encontrei de sexta passada(15/06) ate hoje, quinta-feira (21/06).

E esta não foi uma das tarefas de 30 dias que me dei, foi sim, algo natural que surgiu da minha disponibilidade de viver o que me importa, de perceber para que estou aqui, para que serve viver.



Parece tudo bobagem, um amontoado de lugares comuns, mas a verdade é: precisa tempo livre pra viver, e o trabalho tem que ser apenas uma das coisas que faço a cada dia e não a única.

Se tenho todas as manhãs e tardes ocupadas, e se meu almoço tem que ser feito em 1 hora, contando tempo de deslocamento, almoço e retorno, como pode me sobrar energia e disponibilidade para cuidar de mim, das minhas amizades, de meu corpo, de minha cabeça?

Não existe milagre...

Cada dia entendo melhor porque este ombro me parou, porque o conhecimento só se dá mesmo na experiência. Dizer que preciso de tempo pra viver melhor não é a mesma coisa do que experimentar isto.

Tendo meus dias somente para mim vivo a experiência e percebo que ela não estava sendo vivida e que não havia espaço para mim dentro de meu próprio dia!

Assim é viver dormindo...



A brisa do amanhecer tem segredos para lhe contar.


Não volte a dormir.


Você tem de verificar o que realmente quer.


Não volte a dormir.


As pessoas vão e voltam pelo umbral


onde dois mundos se tocam.


A porta está totalmente aberta.


Não volte a dormir.






Jelaluddin Rumi, século XIII



Obrigada Rumi, obrigada. Até amanhã...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

30 dias

Fiz um pacto comigo mesma de que passaria 30 dias escrevendo pelo menos um texto por dia.
No primeiro dia foi fácil mas no segundo já não rolou.
Hoje o que seria o terceiro, se torna o primeiro novamente!

Escrevo por imposição de meu desejo, como nao se deve escrever, sem história, planejamento, tema ou personagem.
Escrevo para cumprir ...
Assim reinvento este blog abandonado e vazio, busco palavras na arca interna e desenho este caminho onde nascem textos diários por um mês...

Com tempo pra ler, descansar, meditar e cuidar de meu corpo fica até mais fácil..
Um blog que nasceu de um ligamento rompido renasce de outro, estranho!
Estranho precisar ficar doente para me dar tempo  de fazer o que preciso, precisar sentir o aval de uma lesão para parar a roda louca da rotina implacável.

Mas como tudo contem seu oposto, relaxo no fato simples de que meu ombro machucado me fez parar, uma freada brusca que primeiro me fez bater contra o vidro da minha rotina, meus "deverias" e "tem que", e que aos poucos me trouxe o relaxamento e a distância pra ver de onde estou vindo. Vindo de dias sem tempo, dias automáticos, dias de cárcere...

Agora, com um dia retomado da rotina inconsciente percebo quantos espaços e horas me sobram pra me dar o mínimo que preciso.

Aprecio sem moderação prazeres pequenos como um chá da tarde, umas páginas de um livro lidas sentada em meu sofá, uma caminhada pelo bairro mesmo que seja indo ou voltando da fisioterapia, da acupuntura, ou da ortopedista. Ok...

A meditação diária, este sim, prazer maior!!
A calma para fazer as coisas, tempo de olhar as pessoas, as ruas..
.
Agradeço por estes dias, que primeiro me assustaram e agora são vividos detalhadamente.
Deles pode nascer uma nova forma de tratar a mim, a meu tempo, meus prazeres!

Até amanhã...

quarta-feira, 9 de março de 2011

NORDESTE

Nordeste é o ponto situado entre o Norte e o Leste.

Nordeste é o nome de uma das cinco regiões do Brasil segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde fica a Bahia.

Nordeste é o nome de uma cidade no interior do Estado de Goiás.

Nordeste é também o nome de um filme argentino, de Juan Diego Solanas que assisti hoje.

Um filme imperdível.

Imperdível por muito motivos e pra mim cheio de significados...




Brinco sempre que não é justo que eu tenha nascido em Porto Alegre enquanto milhões de outras pessoas tiveram a sorte de nascer na Bahia.

Brinco que a frieza do clima e da gente é algo do qual devo fugir logo, antes da velhice.



Já brinquei muito de orgulho do sul.

Já me alegrei pelo vento , pela chuva, pelo frio e a profundidade que isso nos traz .

Porém, quando conheci a Bahia e seus habitantes descobri que sou mais que tudo brasileira.

A Bahia e seus olhos nos olhos, seus sorrisos largos, suas cores vivas, suas águas quentes, seus lugares amplos, coqueiros, falésias, águas cristalinas, tudo ...



Mas hoje, vendo o filme que se passa no nordeste da Argentina, aqui, logo onde o Rio Grande faz a curva, lembro de que o frio está nas entranhas deste corpo que habito. O vento minuano é a brisa que balança meus cabelos.


Não quero escolher, quero tudo, a totalidade que sou como um corpo nascido no Brasil e uma mente esteticamente sulista.

Enquanto a heroína francesa do filme argentino ia descobrindo os horrores da realidade Correntina, Daniela Mercury cantava no seu camarote de peruca lisa, e milhões de pessoas corriam atrás dos trios em Salvador.

Penso em mim.

Se a protagonista de Paris queria comprar um filho argentino sem pensar na miséria toda que havia por trás, eu também fecho meus olhos todos os dias pra andar na cidade onde vivo, no país onde vivo, sem me comover o tempo todo com o que vejo.

De um lado,

De outro.



Helene foi degelando na Argentina bem debaixo de meus olhos, foi percebendo os arredores, as dores. Se deixando tocar...

Eu com ela...

Seja na Bahia, em Porto Alegre ou Corrientes, somos um Só,

Somos , apenas .



Salve o cinema argentino e o carnaval baiano!!!

NORDESTE - título em português - DESEJO DE SER MÃE
Direção: Juan Diego Solanas
Roteiro: Eduardo Berti
Origem: França/Argentina/Bélgica/Espanha

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Comer, comer e comer

Sob o pseudonimo de Fran, acompanhada de minha amiga Vana, escrevemos sobre os almoços que nos salvam da rotina.



Vai lá:

http://almocacomigo.blogspot.com/

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Não texto




É de me expor que temo ?


Ou não achar um eu ?



É de silêncio o texto ?

Ou de ausências sós?



É por não ter idéias?

Ou pela cópia delas?



É por não crer em mim?

Ou não haver o quem?



Texto

Som

Palavra

Forma

Ponto

Vírgula

Espaço


Branco

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Silêncio é solitário, mas claro... É um Só.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Sofrimento está na Percepção, não no Fato.

sábado, 4 de setembro de 2010

Dentro







Ao andar pelas galerias do pequeno museu, Tereza sentia ainda a tontura da corrida que dera até chegar ali. A subida da ladeira às pressas fez seu coração acelerar, e seu peito arfando causava a sensação de sufoco e zoeira. Mas o mais forte de toda a confusão mental era a lembrança dos gritos de Armado ainda em seus ouvidos. “Vagabunda, desgraçada, fica comigo.”

Nem lembrava bem como conseguira escapar entre a turba em frente ao prédio. Agora, caminhando devagar, recuperando o fôlego, começou a imaginar quantas pessoas se deram conta de sua fuga. Talvez a polícia estivesse chegando a qualquer momento para saber o motivo da briga, ou qual sua relação com o garoto, que agora deveria estar seguindo para o conselho tutelar.

Sua saia estava rasgada e a blusa suja. O chinelo era só uma tira entre os dedos e outra que prendia atrás do tornozelo, e para sua sorte resistira aos paralelepípedos imperiais que voaram sob seus pés no caminho. O cabelo estava como sempre, pois era assim mesmo, grudado na cabeça, sem forma. A boca seca fazia a respiração doer corpo adentro. Mas o mais difícil era segurar as lágrimas que vinham rasgando sua garganta e eram engolidas com força, como uma onda impedida de quebrar. Tereza não queria chorar, pois poderia ser o fim de seu disfarce. Com aquela quantidade de turistas dentro do museu na semana santa seria impossível alguém achá-la.



Não entendia a razão de tanta raiva de seu filho. Ela apenas estava fazendo o que sempre fez... Trabalhando, cuidando de sua vida, ganhando seu pão. Afinal, não era disso que a vida era feita? De uma série de dias seguidos e cinzentos, preenchidos de horas de trabalho, trocadas por moedas inúteis, que eram novamente trocadas por uma comida ruim e bebidas sem gosto, que logo se transformavam em urina ardida pra sair, e cocos fétidos, que logo iriam parar nos esgotos da pequena Esmeralda, uma parte que os turistas não conheciam da histórica cidade.

Armando ainda queria mais dela. Carinho, amor e atenção. Essas palavras que a novela mostra, mas que são apenas idéias de quem tem tempo pra trabalhar menos. De onde um garoto criado num mundo sem sonhos podia esperar mais do que a troca estúpida de suor por esgoto?

Desde que havia entregue seu pequeno para a tia criar, sabia que a vida seria um pouco menos difícil. Afinal sem ter que correr para dar a janta e lavar roupas e levar na escola e costurar furos em calças e cortar cabelos e unhas e catar piolhos e olhar nos olhos daquele menino, parecia que as coisas voltavam a ser o que sempre foram, simples, retas, duras, sabidas.

Nunca gostou daquele excesso de necessidades que o pequeno tinha trazido quando chegou ao mundo sem ser convidado. Choro demais, riso demais, toques demais, quenturas no peito que ela não sabia aplacar. Melhor não ter por perto...

Mas não importa quanto tempo passe, o menino não esquece dela. Volta mais e mais uma vez tentando falar, reclamar, pedir ou oferecer. Não percebe que ela nem consegue entender tanto desejo, não conhece essa espera... Nem por ele ela esperou. Ele chegou sem ser chamado e sem avisar. Seu corpo apenas foi arredondando, sua fome aumentando, o sono ganhando horas do dia e lágrimas que vinham do nada. Até que numa madrugada longa, Tereza sentiu uma água quente descer pelas pernas, uma dor nas virilhas e um fogo ardido lá em baixo.

Dona Alzira, a patroa, não entendeu nada quando ouviu os gritos de Tereza, mas entendeu tudo quando entrou no pequeno quartinho e viu a mulher de pernas abertas.

No hospital a surpresa, um menino saiu de dentro dela como se fosse uma coisa normal. Um bebê que lhe entregaram nos braços e que surgiu assim, do nada, pra nada.

Se Tereza saiu do hospital com o pequeno faminto e sem nome nos braços foi porque não sabia que havia alternativa diferente. Talvez se a freira tivesse perguntado sobre a possibilidade de deixá-lo ali, ela não tivesse tido dúvidas, afinal chegou de repente, poderia partir também.

E foi assim que surgiu Armando, nome dado pela patroa depois de uma semana de nascido, já que Tereza mal conseguia dar teta à boca aberta do pequeno. Nem seus mamilos tinham forma de bico, quase retos, doídos e rachados. Por isso Armando bebeu leite e sangue por uns dias, ficando mais rosado do que gordo.

Tereza mesma nem sabia bem o que uma mãe fazia. A sua, nem conheceu direito. Mal chegou na cidade com ela no colo e sumiu no mundo. Foi tia Deusdina quem lhe deu de comer e lhe arrumou emprego desde que cresceu um pouco e consegui carregar algumas coisas e lavar outras, cozinhar umas comidas e buscar compras, e essas coisas que se fazia, e faz, em Esmeralda, na casa dos que tem dinheiro e dão um pouco pros que não tem, em troca de fazer o que eles não fazem. E ela cresceu assim, entre senhoras e meninas enfeitadas com fitas que nem lhe olhavam nos olhos, muito menos ela queria. Só fazia fazer o que lhe mandavam, assim era pra ser.

Então agora, com o menino, esperava que o tempo passasse logo e ele pudesse começar a fazer as coisas que tinham de ser feitas e deixasse de precisar de tudo, pra que ela também pudesse fazer aquilo que devia, sem parar para atender quando ele chamava.

Dona Alzira já reclamava que as coisas estavam precisando de mais atenção e ela recorreu à Tia Deusdina. “Deixo ele aqui de dia e pego de noite. Como a senhora costura, pode ficar com ele e eu dou metade do que ganho”. Deusdina já tinha criado pra lá de dez e mais um não seria difícil. “Eles se criam sozinhos minha filha, e logo que crescer um pouco mando pro bar do seu Valdevi pra ajudar no balcão.”

E agora sentada no museu olhando pra estátua que, contam, foi feita por um aleijado, Tereza lembrava do dia que ela passou a ver o menino só no sábado, que foi ficando noite e dia com a tia, pra alívio da patroa, e mais ainda do patrão que já não podia fazer as visitas noturnas desde antes do Gritão nascer, como ele dizia.

Da patroa ela nem reclamava, era boa. Ou pelo menos não era ruim. O patrão, ao contrário, tinha um cheiro tão forte de fumo que lhe dava enjôo quando tinha que deitar com ele. E deitava porque sabia que era o que devia fazer, desde criança.

Deusdina já tinha lhe explicado como era, na primeira vez que lhe pegaram, ainda menina, e assim foi sempre. Bom mesmo ela nunca achou, mas ruim também não era. Ardia as vezes, outras não, mas era sempre rápido e logo podia dormir. Os homens pelo menos eram apressados e isso ajudava a não se cansar daquele cheiro azedo e doce que tinha deitar. Não ligava pra sujeira que fazia, pois não conhecia diferente.

E assim foi, que Armando foi ficando maior e aprendeu o caminho da casa de Tereza indo bater lá pra pedir benção, e pedir comida e pedir colo e depois pedir dinheiro, e mais ainda explicação.

Os patrões então acharam que Tereza já tinha ficado ali por muito tempo e o garoto andava aparecendo demais, e já era hora de buscar outro lugar.

Tereza encontrou emprego no bar da Cidade Alta onde serviam cachaça e prato feito, e ela lavava, cozinhava, servia, limpava e fechava tudo, se fosse pra ser. Mas guardava uma vianda pra levar pro menino em casa da tia porque ele andava comendo demais, e o dinheiro já não dava conta, e ainda mais agora que tinha que pagar um quarto na pensão, pequeno mesmo que não cabia Armando.



Mas o menino cismava de achar ruim ficar na tia com mais quatro, se ele era o único que tinha mãe. Coisa estranha achar que pode ser diferente do que é. Tereza nem respondia pro menino essas coisas sobre como deveria ser. Diferente é aquilo que não é, e como ela poderia falar sem saber?



Mas Armando não entendia essa lógica e ela não entendia suas dúvidas e cada vez mais não tinha o que dizer ao garoto, e cada vez mais evitava ver e ouvir suas queixas. E foi assim que mais brabo ele ficou e começou a vir brigar no bar. E ela logo teve que sair pra outro emprego, e mais outro.

Até que ele resolveu que deveria saber quem era o pai. E lá isso existe menino? Pai ? Isso só vi mesmo em casa de gente rica, porque pobre não tem pai, e esquece toda essa bobagem, e me esquece também que já te dei o que tinha pra dar e vai cuidar da tua vida.

E foi assim que Tereza acabou correndo ladeira acima, de chinelos e roupa rasgada pelo desespero do filho que teimou em não se conformar.

E ali, no museu, olhando a estátua de olhos saltados, Tereza se assustou quando sentiu que uma onde forte demais subiu, vazando pelos olhos e boca, virando som de choro que ela nunca tinha ouvido tão forte nem de tão perto, assim mesmo, de dentro, de dentro.





quinta-feira, 15 de julho de 2010

SOPA DE CAPELETTI

Dei a partida no carro, ajeitei o retrovisor, prendi o cinto e acelerei. Não havia imaginado que este dia de sol seria cenário de um funeral, mas a imprevisibilidade é uma das coisas que mais me interessa na vida. Não importam as circunstancias.

Meu destino foi sendo esquecido conforme o vento, que entrava pelo teto solar do meu carro novo, fazia voar meus cabelos e meus pensamentos. Camila era uma figura cheia de vida e desejos em minha memória, e era sua presença que eu sentia ao meu lado.


As curvas verdes da rota romântica, perto da pequena Dois Irmãos, iluminadas pelo sol da tarde de inverno, me pareceram muito com os caminhos da Europa, que eu e ela planejamos visitar logo.

O cemitério era bem próximo à estrada e desci do carro ainda zonzo pelo vento. Já era tarde, e o cortejo chegava ao fim. Me aproximei lentamente do grupo que parava em torno de uma pequena capela, para onde o caixão estava sendo levado.

Encostado em uma árvore esperei pelo momento em que as lágrimas surgiriam espontâneas, em que os presentes viriam até mim com suas graves condolências, em que seria reconhecido como viúvo. Mas nada disso ocorreu.

Não eram os comuns interioranos que me vinham, mas o perfume de Camila. Seus cabelos dourados cheirando a camomila, ou algo do gênero. O som grave da voz dela sussurrando besteiras, que, nunca, nem ouvi com atenção. O sol da tarde entrando pela janela do quarto do hotel, o lanche cheirando a torrada de presunto e queijo com café. Sua risada, sua risada. Ver seu rosto branco brilhando era meu maior prazer na aula do curso de gestão nas noites de quinta-feira. Ainda sentia sua pele nas minhas mãos quando entrava em sala. Minhas narinas cheias de sensações, apelos saciados, pela ainda arrepiada. Camila me provocava com sua cara de nada aconteceu entre nós há poucos minutos caro professor. E quem seria aquela doida com cara de santa ?

Vi as pequenas meninas louras, que me pareciam miniaturas sem brilho de Camila, estavam vestidas como se fossem a uma festa, de mãos dadas com o pai. Ele sim, o digno viúvo.
Me sentia invisível olhando para o homem que nada sabia sobre a mulher que vivia com ele. Os sonhos, delírios, loucuras, ciúmes, devaneios e medos de Camila eram todos meus. A fragilidade e a beleza, tudo isso morria apenas para mim, e não para ele.

Naquele palco de colônia alemã no interior do Rio Grande do Sul, Camila era apenas a esposa linda do clínico da cidade, tão dedicada e correta que se sentia culpada de ir à capital toda a semana para as aulas do pós.

Para mim ela era a mulher, a amante, o prazer do encontro, a dor da partida constante. Ela nada me trazia daquela vidinha pitoresca. Nenhuma palavra sobre ser mãe, sobre o futuro ou passado, isso não nos interessava.

O sol bateu em meu rosto, já se pondo. O cortejo se desfez. As meninas estranhas, seu pai e família permaneceram junto ao caixão.
Segui caminhando em direção a eles, os olhos interioranos do médico encontraram os meus. Só então as lágrimas vieram. A legitimidade da dor não era minha e chorei ainda mais. Fui até o cimento fresco e toquei a ponta dos dedos. Camila não estava ali, apenas uma jovem senhora desinteressante, minha desconhecida. Chorei mais, e mais ainda. Talvez para estragar a paz da família perfeita, talvez por inveja, ou somente por saudade das risadas soltas de Camila.

Dei as costas para o atônito marido. Liguei o carro e iniciei a descida da serra. Hoje era dia de sopa de capeletti em casa, e Lígia me esperava com as crianças.

sexta-feira, 26 de março de 2010


A névoa aos poucos preencheu o vazio.
Mas ele mesmo assim não foi afetado...
Apenas os vales, montanhas e cataventos
deixaram de existir.



O som, devagar, surgiu no silêncio
E ele, em nada, foi afetado...
Só os latidos, gritos e ventanias
passaram a existir.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Sigo amanhã cedo de férias pra Bahia.


Será que volto?


Nunca...


Assim como nunca um homem entra duas vezes no mesmo rio, nunca uma mulher volta a mesma de suas férias.


Seja feita a vontade de Iemanjá nas águas da Ilha de Boipeba!!!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mais uma morte

Daqui a pouco estarei indo para a apresentação do meu TCC na banca da ESPM.
Termino meu pós.
Foram 18 meses que passaram em um dia.
Na verdade são 42 anos que passaram em 10 anos, ou menos.

Tudo é muito rápido na dimensão linear e horizontal do tempo.

O que quero dizer com isso ?

Foi bom estudar de novo. Reconhecer este espaço em mim. Encontrar pessoas diferentes, ler assuntos que nunca me disseram muito, quebrar preconceitos contra o administres.

Mas mais que tudo, estes projetos que tem prazo me jogam na cara muito intensamente essa questão do tempo.
Parece tão longo o período, e passa tão rápido.

Lugar comum eu sei, mas a vida é lugar comum. O tempo todo.
Esses desejos de especialidades espetaculosas também são lugar comum.

O julgamento acerca da mediocridade é medíocre.
Não há nada que seja melhor do que nada.

Essa é verdade que não queremos ver.
Vista, não se cristaliza, porque nos dá uma liberdade que não estamos prontos ou disponíveis para ter.

Mesmo os famosos nomes do mundo da ciência ou literatura ou artes ou politica ou bla bla bla, são lugar comum.

Escapam aqueles, justamente aqueles, que sabem disso.
Que são capazes de não fazer acordos em nome do glamour.

Amém a todos eles, esses sim meus ídolos, os que foram e são capazes de viver a simplicidade e assim se tornam especiais.

Morro mais uma vez, antes da última.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

...

Twitter
Paraíso das frases de efeito!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

afetos


A névoa aos poucos preencheu o vazio
E ele, mesmo assim, nao foi afetado...

Só os vales, montanhas e cataventos
deixaram de existir.

pARA hILDA 2


Amiga querida
Cá estou
Imersa naquilo
que tanto querias

Sim,há
e mata os desejos
como previste,
e não o tédio

Mas a paz fica
e Ele não vai
nem veio nunca

Aqui é,
apenas
repousa

Já sabias

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conhecimento

Tudo o que conheço, MATO
Cada um
Coisas
Amores
Lugares

Como se marcasse um aao lado daquilo que penso conhecer

Desconheço então, A partir de agora, tudo aquilo que marquei

Esqueço o apreendido
desisto do saber

Abraço o frescor da descoberta

NADA SEI

domingo, 25 de outubro de 2009

Já me dei o poder que rege meu destino
E não me prendo a nada, para não ter nada a defender.
Não tenho pensamentos, por isso verei.
Não receio nada, por isso me lembrarei de mim mesma.
Desprendida e a vontade, Passarei como um jato pela águia para me tornar livre.

Carlos Castañeda em o Presente da Águia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

HIlda


-
Hilda
Caçadora de Deus
maldita e devota

MInha parte mais ácida
amarga e entregue
Puro desejo
Espera vã

Se tanto quiseste
demais até
lá estava
sempre esteve

NÃO olhaste
bem aqui

terça-feira, 6 de outubro de 2009

cheguei...




É terça-feira.

Cheguei ontem no sítio onde me retiro voluntariamente. O lugar é lindo!

A vista da minha cabana inclui o morro da Borrússia, as antenas, lagos, parque eólico, Osório e até o mar...

O silêncio é óbvio.

Tenho por companhia o Mooji, Eckart Tolle, Osho e Krishnamurti, que encontrei por aqui. Além do sapo folha, que apelidei agora de Baba.

Nem o temporal afetou o silêncio. Ele continua, sempre...

Assim como o vento realmente não pode afetar o espaço.

Apenas o que é forma- e por natureza - transitório.

A paz É.

São poucas as distrações, e sem personificação ficam ainda menores.

Apenas a crença no outro pode criar ilusões que distraem.